Jornalismo, humanização e o racismo estrutural

“O ser humano como ponto de partida e de chegada na narrativa jornalística”

Por Jorge Kanehide Ijuim

Com a colaboração de Géssica Gabrieli Valentini

Os recentes protestos antirracistas nos Estados Unidos não estão restritos à morte de George Floyd por um policial branco, em Mineápolis. Parece ter sido uma gota d’água numa longa história de dominação sobre as populações fragilizadas – afro-americanos, latinos, pobres. A exemplo do Brasil, o continente norte-americano também estabeleceu suas bases de desenvolvimento no sistema escravocrata. Ali também, o sucesso econômico se deveu à exploração da mão de obra de negros africanos.

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Fonoaudióloga hospitalar tem rotina intensa (e tensa) durante a pandemia

Lila Abreu acorda todos os dias entre 6h e 6h30. Às 7h30 inicia seu expediente de oito horas diárias, seis dias por semana, entre os dois hospitais em que trabalha – São José e Dona Helena em Joinville (SC). Durante essas oito longas e tensas horas, divide-se entre UTI geral, UTI respiratória (área restrita da Covid-19), enfermarias e ambulatório.

Sim, Lila está ao lado de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos que compõem uma das equipes multidisciplinares que estão da linha de frente no combate ao novo corona vírus.

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No pós-corona, teremos a sabedoria ou a mesmice

Máscara, álcool gel e higienização cuidadosa e constante. A rotina de Ricardo e de seus colegas de trabalho mudou drasticamente nas últimas semanas. Se antes tinham medo de cachorros, hoje o pavor é do novo corona vírus.

Ricardo André Barbosa Leopoldino trabalha nos Correios desde 2014, quando vivia em Belém-PA, cidade em que nasceu há 42 anos. Em Florianópolis há dois anos, mora no bairro Costeira do Pirajubaé, com sua esposa Dimar, que é professora de educação física, e seu filho Lukas, 22 anos, estudante de agronomia.

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Milão. A cidade mais privilegiada de Itália está agora na fila do pão

Numa cidade isolada, as únicas aglomerações de pessoas na rua ocorrem à entrada dos supemercados (Foto: Getty Images)

O fim de uma era. A cidade mais privilegiada de Itália está na fila para o pão. A partir de Milão, onde vive e está isolado, o escritor italiano Antonio Scurati escreve o que vê da janela da sua casa.

Antonio Scurati é professor de Linguística e Comunicação na Universidade de Milão. Com o livro “M – O filho do século”, ganhou o Prêmio Strega, o mais importante da literatura italiana.

Por iniciativa do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, está sendo publicada a coleção “Janelas para o Mundo”. Vários escritores e filósofos de todo o mundo escrevem sobre o que veem das suas janelas durante o período de isolamento motivado pela pandemia da Covid-19. Como sinal de proximidade cultural em tempos de distância política e social, artigos desta coleção são publicados também noutros jornais internacionais, como o Corriere della Sera (Itália), o Politiken (Dinamarca), o Die Presse (Áustria) e o Observador (Portugal), de onde replicamos este texto.

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Sobre beber água e alimentar a paz

Dia desses recebi uma mensagem num grupo de WhatsApp com uma recomendação visando enfrentar uma onda negativa que abala o mundo. A argumentação é interessante: “Levando em conta os eventos que ocorrem no mundo agora mesmo, sempre com a intenção de espalhar o medo (a principal arma de controle) por aqueles que governam o mundo”. Daí o lançamento de um movimento intitulado “Beba água e alimente a paz”. A ideia básica da campanha é fazer com que cada um de nós, na hora de beber água … a qualquer momento, mentalize a frase…

O MUNDO ESTÁ EM PAZ E EU TAMBÉM!

E a exortação é otimista:

– Vamos formar um fluxo de vibração de alta frequência em favor da paz. O poder da oração se multiplicará toda vez que alguém aderir ao movimento.

E a justificativa parece convincente:

– De acordo com a física quântica, a repetição sistemática de pensamentos, músicas e palavras, cria meios propícios que facilitam a concretização dos objetivos de mentalização.

A postagem provocou dúvidas em alguns membros do grupo, especialmente porque a origem da suposta convocação teria partido de um estudioso de física quântica. Como misturar ciência, saúde, bem-estar físico e mental?

Eu penso que sim, podemos pensar saúde e bem-estar pela ciência. Aliás, devemos. Mas com a prudência necessária para não cair nas armadilhas das mensagens reducionistas das redes sociais.

Isso me fez lembrar em Fritjof Capra, um dos físicos mais sérios que estuda a teoria quântica. Entre tantos livros que já escreveu, destaco a trilogia O ponto de mutação, O Tao da física e A teia da vida. Essas leituras, a partir do final dos anos 1990, me fizeram mudar minha visão de mundo como jornalista, professor e pesquisador.

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Regina Duarte, O Santo Inquérito e a dignidade negociada

A “namoradinha do Brasil” também já foi Branca, em O Santo Inquérito, de Dias Gomes, nos anos 1970. O tempo passa, o tempo voa, e a história nos mostra que não podemos confundir personagens com as pessoas reais. E mais… cedo ou tarde as pessoas reais mostram sua verdadeira cara.

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O leão e as hienas

O presidente, em mais uma de suas “viagens”, postou um vídeo neste fim de semana em que faz alusão à animação “O Rei Leão” (original de 1994 e o remake de 2019). O mandatário se apresenta com Simba, herdeiro legítimo do reinado, antagonizado por hienas, supostamente inimigas, representadas por vários segmentos em oposição ao seu objetivo de salvar a vida do lugar. Veja aqui.

Provavelmente o presidente nem tenha ideia de que a produção hollywoodiana remete a uma obra muito mais antiga, de um inglês nem tanto conhecido (para ele), um tal de Shakespeare. Mas isso nem é importante (a ele). Como assisti ao filme dezenas de vezes com meus filhos, conheço um pouco dessas produções, de King Lear, de 1605, ao The Lion King atual.

Qualquer que tenha sido o 010203Žotário que fez a montagem que circulou por algumas horas esta semana, talvez não se lembre que as hienas fizeram um pacto com “outro leão”, o Scar. O tio mau recorreu a inúmeras artimanhas para chegar ao poder, desde matar o próprio irmão (Mufasa) e fazer Simba, o filho herdeiro, a acreditar que foi o responsável pela morte do pai. Daí Scar ser rodeado pelas hienas.

Após a “estória”, quem sabe um dia, a “história” nos mostre quem é quem. Quem é Simba e quem é Scar. Quem são essas hienas? a imprensa? o STF? partidos adversários? ou…

O ovo da serpente (pode eclodir em breve)

Obra prima do genial Ingmar Bergman, O ovo da serpente é atualíssimo para quem tem acessado minimamente o noticiário. A onda reacionária global que assola vários países tradicionalmente democráticos nos força a pensar nos perigos de um retrocesso. Os pesadelos que a humanidade imaginava jamais reviver podem estar em curso.

Berlim, novembro de 1923. Abel Rosenberg é um trapezista judeu desemprego, que descobriu recentemente que seu irmão, Max, se suicidou. Logo ele encontra Manuela, sua cunhada. Juntos eles sobrevivem com dificuldade à violenta recessão econômica pela qual o país passa. Sem compreender as transformações políticas em andamento, eles aceitam trabalhar em uma clínica clandestina que realiza experiências em seres humanos.

Realistas ou pessimistas, se ainda não assistiram, vale a pena ver de novo a este magnífico e perturbador filme para pensar o Brasil e o mundo atual.

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Ayres Britto, a Constituição e a liberdade de imprensa

Carlos Augusto Ayres de Freitas Britto nasceu em Propriá (Sergipe), em 1942.  É jurista, advogado, magistrado, professor e poeta brasileiro. Foi ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2003 a 2012, tendo sido presidente daquela corte e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2012.

Ayres Britto, como é mais conhecido, foi o personagem do Roda Viva, tradicional programa de entrevistas da TV Cultura, de 22 de julho. Entre tantos temas da vida brasileira, o ex-ministro abordou a questão da liberdade de imprensa e de expressão a luz da Constituição de 1988, a qual teve papel primordial ao ser o relator daquela carta magna.

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