Fonoaudióloga hospitalar tem rotina intensa (e tensa) durante a pandemia

Lila Abreu acorda todos os dias entre 6h e 6h30. Às 7h30 inicia seu expediente de oito horas diárias, seis dias por semana, entre os dois hospitais em que trabalha – São José e Dona Helena em Joinville (SC). Durante essas oito longas e tensas horas, divide-se entre UTI geral, UTI respiratória (área restrita da Covid-19), enfermarias e ambulatório.

Sim, Lila está ao lado de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos que compõem uma das equipes multidisciplinares que estão da linha de frente no combate ao novo corona vírus.

Lila Jerusa N.P. Abreu nasceu em Macapá (AP) e graduou-se em Fonoaudiologia na Universidade da Amazônia (Unama), em Belém do Pará, há 18 anos. Especializou-se em disfagia e alcançou o mestrado em distúrbios da comunicação pela Universidade Tuiuti do Paraná. Em sua estada em Curitiba, conheceu Nelson Malagoli, com quem se casou e tem três filhos – Laura, com sete anos, Lorenzo e Beatriz, os gêmeos com três anos. Nelson, carioca radicado em Joinville, é Cardiologista e também atua do enfrentamento à Covid-19 em quatro unidades hospitalares.

Em sua entrevista ao Ijuim Shinbun (ver vídeos ao final), Lila destaca que a pandemia alterou sua rotina de maneira significativa. Acostumada a atender pacientes que apresentavam dificuldades para se alimentar – disfagia –, normalmente pacientes de trauma, com sequelas de AVC, ou que passaram por longo período de intubação e precisavam de reabilitação. Houve redução no número de pacientes com esse perfil e agora os esforços estão centrados no combate à Covid. São menos pacientes, mas estes exigem maior atenção e cuidados, não só pela gravidade dos casos, mas porque permanecem na ventilação mecânica por muito mais tempo – média de 11 dias.

A rotina está mais intensa (e tensa) por conta dos maiores cuidados nesse tipo de atendimento. A preocupação com a contaminação é grande, não só durante os procedimentos, mas na paramentação e desparamentação, com os equipamentos de segurança (EPIs), e até no retorno para casa.

Sobre a atuação fonoaudiológica frente à Covid, Lila ressalta que mesmo em casos de pacientes com sintomas iniciais, em que há falta de ar, este pode apresentar dificuldades na capacidade de se alimentar e de comunicação (fala), o que exige atenção especial, assim como dieta apropriada e cuidados que facilitem a deglutição. Já os casos mais graves, em que há a necessidade de ventilação, é mais delicado, pois as pessoas infectadas ficam por longos períodos intubadas. Estas podem receber medicação para facilitar a respiração na ventilação mecânica (respirador), o que deixa a musculatura com certa flacidez (hipotonia). Esses pacientes também podem apresentar edemas na região glótica e lesões em pregas vocais, incoordenação deglutição x respiração, o que pode resultar em engasgos ou broncoaspiração – o alimento pode ir aos pulmões ao invés do estômago. Isso pode agravar seriamente o quadro pulmonar do paciente. Daí entra a atuação da fonoaudiologia com o trabalho de reabilitação, reintroduzindo a alimentação por boca, com exercícios funcionais, e manobras de deglutição para garantir à pessoa a segurança na alimentação e o restabelecimento da fala, comunicação e consequentemente qualidade de vida.

Lila está preocupada com o momento. Percebe que o relaxamento da quarentena para vários setores levou muitas pessoas às ruas e, com isso, o aumento do número de casos. “Em uma semana dobrou o número de atendimentos”. No momento do fechamento desta reportagem, o noticiário dava conta que Santa Catarina tinha a maior taxa de ocupação de UTIs desde o início da pandemia. Só em Joinville, onde Lila trabalha, são 320 casos confirmados.

Fonte: Governo de Santa Catarina 

Por isso, a fonoaudióloga alerta que o distanciamento social ainda é a melhor medida possível para o enfrentamento ao corona vírus. Ainda que se tenha os cuidados preventivos como o uso de máscaras e a higiene pessoal, “a melhor forma de proteger àqueles que ama é o isolamento social”, sublinha a profissional de saúde.

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Após o trabalho, Lila Abreu retorna a sua vida privada. Encontra os três filhos que estiveram sob cuidados de uma babá, que também exigem atenção. São as atividades escolares “in home”, e todas as demandas de uma casa. Vai para a cama sempre após à meia noite. É uma rotina diferente que, ao que parece, será assim por algum tempo.

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A entrevista completa está disponível, em dois blocos, nos links a seguir:

Rotina de uma fonoaudióloga intensivista no combate à Covid-19 (Parte 1)  https://www.youtube.com/watch?v=lur491LGntU&t=24s

Rotina de uma fonoaudióloga intensivista no combate à Covid-19 (Parte 2)  https://www.youtube.com/watch?v=Kn1wYihqTGE&t=7s

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